Histórias da Construção

Série Estilos do Brasil: a influência da borracha na arquitetura do Norte 

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Até 1730, o uso da borracha na Europa era reduzido à borracha de apagar, sendo que só a partir de estudos científicos publicados nesse período que seu potencial começou a ser explorado. Os europeus, observando que povos indígenas americanos já utilizavam o material desde o período pré-colombiano, puderam então começar a produzir roupas impermeabilizadas, sapatos, vasilhames de borracha etc. O látex, material básico da borracha, vem da seiva da seringueira, retirado a partir de cortes no caule. Para comercialização, era transformado em bolas consistentes, facilitando seu transporte. Na época, a Floresta Amazônica era o habitat da seringueira, o que despertou o interesse europeu na região e fez com que a economia da borracha se tornasse a principal atividade econômica no Norte do Brasil, a partir do Século XVIII, trazendo mudanças econômicas e sociais.

A economia da borracha na Região Norte tinha alguns agentes bem definidos: o seringalista, dono das terras e meios de produção; o banqueiro, que possuía os créditos para apoiar o sistema; o aviador, que tratava das relações comerciais entre os agentes e compradores estrangeiros e, finalmente, os seringueiros, coletores do látex, na ponta da produção. Esses últimos eram formados por imigrantes nordestinos ou de regiões próximas à Amazônia, atraídos por rumores de riquezas e melhorias de vida. No entanto, entre todos os beneficiados das riquezas da borracha, os seringueiros foram os menos contemplados.

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Para coletar o látex, os seringueiros tinham que se aventurar mata adentro e se isolar da sociedade, o que impedia o acesso a informações e identificação de classe. Dentro da Floresta Amazônica, com a natureza selvagem e clima quente e úmido, viviam em “tapiris”, palhoças, feitas de materiais perecíveis, o que fez com que não existissem registros além de fotos. Essas barracas acompanhavam o trajeto do rio, na estrada da borracha, caracterizando sua utilidade para a produção.

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Figura 1 – O tapiri, fotografado pelo italiano Ermano Stradelli

 

Devido ao crescimento da extração de borracha, as capitais foram as grandes beneficiadas. Belém já era uma capital imponente por ser ponto estratégico no comércio entre a Região Norte e Portugal, porém, com a economia da borracha, tanto ela quanto Manaus começam a crescer rapidamente. Isso fez com que se desenvolvessem bairros planejados, com comércio, saneamento, iluminação pública, transporte e limpeza, serviços esse realizados por empresas estrangeiras. As famílias que viviam no centro eram aquelas mais abastadas, que eram diretamente ligadas à economia da borracha, ou já conhecidas da época imperial. Já as outras foram progressivamente afastadas para regiões chamadas de baixadas.

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Figura 2 – Planta da cidade de Belém, PA, de José Sydrim, 1905

 

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Figura 3 – Planta da cidade de Manaus, AM, 1906

 

As residências nas grandes cidades deixaram a simplicidade para adotar fachadas decoradas, ambientes dedicados como sala de jogos e escritórios, com móveis que se tornaram objetos de ostentação para essa nova classe rica. Com esse objetivo também foram construídos chalés em regiões mais afastadas, bem decoradas e, em grande parte das vezes, em estruturas de ferro.

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Figura 4 – Residência no centro de Belém, PA

 

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Figura 5 – Chalé de campo, em estrutura metálica

 

O ferro foi um dos materiais trazidos da Europa e da América do Norte que começaram a ser utilizados em construções na época, aparecendo na decoração de prédios como a Livraria Tavares Cardoso e o Mercado da Carne. Foi utilizado também em portos, local em que era trocado diretamente pela borracha.

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Figura 6 – Livraria Tavares Cardoso, Belém, PA, 1910

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Figura 7 – Mercado da Carne, Belém, PA

A França teve grande influência intelectual, na moda, arte e comportamento social, mas foi a Itália que definiu a arquitetura das grandes cidades da região no período. Artistas, arquitetos e decoradores italianos vinham trabalhar nas reformas residenciais e nas novas obras construídas como paradigma de cultura e modernização. São exemplos o Teatro da Paz em Belém (1878) e o Teatro Amazonas em Manaus (1896). A influência italiana trouxe o estilo eclético para as construções e fachadas, com o sentimento de reproduzir o que era visto na Europa.

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Figura 8 – Teatro de Belém, PA

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Figura 9 – Teatro Amazonas, Manaus, AM

No fim do Século XIX, a partir de um plano de arborização, foram construídos parques e praças, com quiosques e pavilhões de ferro, falsas ruínas e lagos, com elementos europeus. Além disso, era foco de artistas europeus a concorrência para participar na criação de monumentos e esculturas, que agora decorariam praças e cemitérios.

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Figura 10 – Monumento na praça São Sebastião, Manaus, AM. Domenico de Angelis e Enrico Quatrinni

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Referências:
http://blogdoespacoaberto.blogspot.com/2016/02/belem-nos-tempos-livraria-tavares.html

https://arteamazon.com/obra/163/fotografia/interior-do-teatro-da-paz#8510-21—-54-0-0

TELLES, Augusto C. da Silva; GOMES, Geraldo; ROCHA-PEIXOTO, Gustavo; SEGAWA, Hugo; CURTIS, J. N. B. de;

DERENJI, Jussara; ANDRÈS, Luiz Phelipe de Carvalho Castro; OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Arquitetura na formação do Brasil. Brasília: Unesco, 2007. 346 p.

 

Eder Mendes – Consultoria Técnica InterCement Brasil

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